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02.08.2020

A morte para além da Covid-19: Em busca do que explica os picos de mortalidade em Portugal

Estudos revelam que o excesso de mortes registado este ano em Portugal não é apenas responsabilidade do novo coronavírus. Os especialistas procuram perceber até que ponto as mortes são danos colaterais do contexto pandémico vivido nos últimos meses

Desde março, Portugal registou vários picos de mortalidade que ultrapassaram a média de mortes esperada. A mortalidade por causas naturais no nosso país é inegavelmente superior, relativamente a 2019, no entanto, a Covid parece explicar apenas parte desse aumento.

Subtraindo as 1727 mortes por Covid-19 ao número total de mortes por causas naturais, registadas desde 16 de março de 2020, verifica-se um valor de quase 2600 óbitos a mais relativamente ao valor registado em 2019, no mesmo período temporal. Os especialistas apelidam-nas de mortes colaterais da Covid-19 e indicam diversas explicações que, tal como o desenvolvimento da própria pandemia, dependem da evolução das circunstâncias e dos momentos epidemiológicos.

Dois estudos da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa, realizados a 21 de abril e 19 de junho, refletem sobre o excesso de mortalidade observado em diferentes momentos da pandemia. Em abril, um mês após a primeira morte por Covid em Portugal, tinham já sido registados mais 1255 óbitos do que o esperado, com base na mortalidade média registada nos últimos 10 anos. No entanto, apenas 49% deste número correspondia a mortes diretamente causadas pelo novo Coronavírus, enquanto os restantes 51% eram atribuídos a outras patologias.

Já entre 3 de maio e 13 de junho, nas seis primeiras semanas do desconfinamento, a mortalidade encontrava-se 8% acima do esperado, tendo em conta os valores dos últimos seis anos nesse mesmo período. Também neste segundo momento a maioria do excesso (59%) de óbitos foi causada por outras causas naturais que não a Covid.

Os dados da EuroMOMO, atualizados até dia 30 de julho, colocam Portugal como um dos quatro países da União Europeia onde se verifica excesso de mortalidade, ao lado de Espanha, da Bélgica e da Suécia.
O que está a matar os portugueses

Alexandre Abrantes, coordenador dos dois estudos da Escola Nacional de Saúde Pública, já solicitou à DGS os números relativos à mortalidade diária por causas específicas ou grandes grupos (por exemplo tumores, doenças cardiovasculares ou doenças endócrinas), em 2020 e nos anos anteriores, mas estes não foram ainda disponibilizados.

Ainda assim, Vasco Ricoca Peixoto, médico interno de Saúde Pública e um dos autores dos documentos, explica que, “muito provavelmente, o padrão de mortalidade por causas específicas não será muito diferente dos valores médios registados até 2018, mas seria importante verificar eventuais aumentos de mortalidade por causas cardiovasculares e oncológicas”.

Ou seja, cerca de 25% das mortes serão causadas por tumores, 29% por doenças do sistema circulatório e 4% por doenças endócrinas. Dos restantes 42%, sabe-se que, em média, apenas 1,5%das mortes será responsabilidade da Covid-19.

“É preciso perceber que a mortalidade associada ao novo coronavírus só foi tão baixa, porque a transmissão está a ser altamente controlada”, refere Vasco Ricoca Peixoto. Também Henrique Lopes, especialista em Saúde Pública e professor na Universidade Católica Portuguesa, refere estudos franceses, ingleses e alemães que projetam um cenário onde não tivesse sido tomado nenhum tipo de precaução, revelando, “na melhor das hipóteses teríamos tido o triplo das mortes e o triplo do número de infeções”.

Ainda que, sem os dados solicitados à DGS, seja difícil ter um retrato fidedigno da dimensão do problema, os especialistas acreditam que a redução das consultas presenciais não urgentes, aliada ao medo de contrair Covid-19, que manteve certos doentes afastados do hospital, bem como a fragilidade de muitos deles, são fatores que podem ter contribuído, em parte, para o excesso de mortalidade registado nos primeiros meses da pandemia.

Se, em março, o número de consultas presenciais superava um milhão, em abril e maio mal ultrapassava as 500 mil. “Quando pessoas com doenças crónicas avançadas como a diabetes, doenças cardiovasculares ou doenças renais estão muito tempo em casa sem acompanhamento, acabam por descompensar. Além disso, a maioria destes doentes são idosos que evitaram a todo o custo ir a urgências de hospitais, por terem medo”, explica Ricoca Peixoto. No entanto, esta explicação limita-se aos meses em que o país esteve confinado e não se aplica aos últimos meses, nos quais a vida começou a regressar ao ritmo normal.

Atrasos no diagnóstico podem ser fatais

Segundo os autores dos estudos realizados pela Escola Nacional de Saúde Pública, alguns dos picos de mortalidade registados ultimamente parecem estar associados a vagas de calor, que descompensam os idosos, os quais acabam por morrer alguns dias depois, no hospital.

Vasco Ricoca Peixoto alerta ainda, “agora, podemos começar a ter aumentos ligeiros na mortalidade, que não ultrapassam o intervalo de confiança, mas que podem significar alteração no acompanhamento e cuidado das pessoas, nomeadamente pessoas vítimas da suspensão dos rastreios oncológicos”. O médico refere que os pacientes nestas condições não morrem todos ao mesmo tempo, nem causam um excesso de mortalidade num ponto específico.

“Sendo verificados, esses óbitos ocorrerão, eventualmente, de forma mais distribuída ao longo do tempo. É expectável que a mortalidade destes doentes seja maior, relativamente a uma realidade onde os rastreios oncológicos não tivessem sido suspensos. Mas ainda não conseguimos ter noção da verdadeira dimensão do problema”.

Também Ana Raimundo, presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia, não tem dúvidas que, “o impacto, em oncologia, irá verificar-se só daqui a três, quatro, cinco anos. Quando olharmos para as curvas de sobrevivência, nessa altura, iremos verificar que as taxas de mortalidade serão superiores”. A médica explica que os aumentos na mortalidade verificados, neste momento, não dependem dos doentes oncológicos, pois “todos os que já tinham sido diagnosticados continuaram a ser tratados, graças a um enorme esforço dos serviços oncológicos públicos e privados para se reestruturarem”.

Suspensos a 13 de março, quando o Governo decretou a paragem de atividades não urgentes, os rastreios oncológicos para o cancro da mama, colo do útero e coloretal foram retomados apenas no início de julho. “Houve uma grande diminuição do número de primeiras consultas”, conta Ana Raimundo, assegurando que “a incidência do cancro não reduziu, não está é a ser feito o diagnóstico”. A médica prevê que este diagnóstico será feito mais tardiamente, “sendo diagnosticados mais cancros em estadios mais avançados, de tratamento mais complexo e com menor probabilidade de cura”.

Segundo o site da Liga Portuguesa contra o Cancro, são diagnosticados cerca de 11 novos casos de cancro da mama por dia. Desta forma, tudo indica que uma paragem nos rastreios equivalente a dois meses poderia corresponder a 660 casos deste tipo de cancro não diagnosticados. Um estudo publicado pela Sociedade Portuguesa de Oncologia em 2017, afirma ainda que “estes programas de rastreio demonstraram benefício na redução da mortalidade pela doença superior a 20%”.

Para Ana Raimundo, no entanto, a preocupação atual prende-se com o cancro coloretal, cujos rastreios ainda não foram retomados, “embora este tipo de cancro afete ambos os sexos e, por isso, tenha uma taxa de mortalidade superior ao cancro da mama, por exemplo”, refere. E acrescenta, “não vejo ninguém preocupado em recuperar o que ficou para trás. Não são só os três meses sem rastreio, é a falta de pessoas para diagnosticar doentes sintomáticos que continuam sem conseguir marcar consultas ou exames complementares de diagnóstico em tempo útil. Ou as coisas se reestruturam e começam a funcionar dentro do normal ou então não vamos recuperar nada”.

O caso não é exclusivo de Portugal. Em Inglaterra, foram tomadas medidas semelhantes, relativamente à suspensão e adiamento de rastreios oncológicos. Um estudo, publicado a 20 de julho na revista Lancet Oncology, reflete precisamente sobre o impacto que estas medidas terão, a longo prazo, na mortalidade dos doentes com cancro.

Após analisarem mais de 90 mil pessoas com cancro da mama, colorretal, do esófago e dos pulmões, os investigadores chegaram à conclusão que, caso a deteção do cancro nestes pacientes tivesse sofrido um atraso até 12 meses, acabariam por ter sido observadas, nos cinco anos subsequentes ao diagnóstico, mais 3621 mortes do que num contexto de rastreamento normal. “Em Inglaterra, são esperados aumentos substanciais no número de mortes evitáveis por cancro, como resultado dos atrasos no diagnóstico, consequência da pandemia Covid-19 no Reino Unido”, concluem os autores do texto.
E ainda os suicídios

Outra causa de morte que parece ter aumentado, de março a julho deste ano, foi o suicídio. No mesmo período, em 2019, registaram-se menos 27 mortes por suicídio.

“Do ponto de vista epidemiológico, de acordo com a minha experiência pessoal, é compreensível que os quadros de psicopatologia tenham tido um acréscimo, designadamente das chamadas patologias da ansiedade, como obsessões, fobias e ansiedade generalizada, e das patologias do humor, que são as depressões em todas as suas variantes”, afirma Carlos Braz Saraiva, fundador da Consulta de Prevenção do Suicídio em Portugal e o primeiro presidente da Sociedade Portuguesa de Suicidologia.

O psiquiatra explica que, perante este aparente aumento dos quadros clínicos subjacentes ao processo suicida, é expectável que o número de suicídios possa ter sofrido um acréscimo. Mas salienta, “normalmente, entre a primavera e o verão, o nosso país costuma assistir a um aumento do número de suicídios. Além disso, quando falamos de fenómenos como este, que não podem ser assacados apenas à psiquiatria e à saúde pública, é necessário ter um determinado compasso de tempo para uma tentativa de explicação mais credível e rigorosa sobre o que efetivamente ocorreu. Estamos ainda muito em cima dos acontecimentos para se poder tirar conclusões muito fidedignas”.

Braz Saraiva aponta ainda para o facto de o escrutínio do meio ambiente ser uma das funções biológicas vitais do ser humano. “O facto das pessoas terem tido muito mais espaço para o ensimesmamento, devido a uma menor presença de elementos distrateis, como o trabalho e o contacto social, pode representar uma realidade patogénica”, refere.

Ao contrário do que dita o senso comum, o suicídio não acontece perante o vazio, mas como consequência daquilo que os especialistas apelidam de trilho doloroso, marcado por uma narrativa de sofrimento. Apesar de ainda ser preciso dar tempo ao tempo, a fim de perceber se a quarentena despoletou o início de caminhos destes em certas pessoas, Carlos Braz Saraiva revela, “estamos a encontrar não só a psicopatologia aumentada a nível das doenças da ansiedade e do humor, mas também as repercussões sistémicas, que implicam as relações familiares”. Segundo o psiquiatra tem sido observada, por um lado falta de esperança e, por outro, a perceção de que não se consegue controlar determinadas situações. “Quando estes dois rios se juntam estamos perante um caudal potencialmente maléfico”, conclui.

Fonte: Visão
Foto: Getty Images