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01.08.2020

60% dos médicos que se formam no Algarve ficam lá, muitos do Norte

José Ponte foi o primeiro diretor do curso de Medicina no Algarve, que admite candidatos já com outras licenciaturas. Fez a maior parte da carreira no Reino Unido, para onde regressou quando se jubilou em 2013. Continua ligado à faculdade e aos estudantes e acredita que a região está hoje melhor preparada para lidar com a pandemia. Quando lá chegou, em 2008, tinha terror de ir parar aos cuidados intensivos.

Soube-se esta semana que não houve candidatos para as 60 vagas para médicos que habitualmente abrem no verão no Algarve. Fazem sentido estes concursos todos os anos?

O Algarve tem picos de afluência em que é preciso reforçar equipas. Este ano haverá menos turistas, mas por causa da pandemia pode ser necessário. O que me parece é que mais que pedir médicos, é preciso poder escolher os médicos. Já o disse em público: os médicos não são todos iguais e às vezes quando as pessoas não são bem escolhidas é mais perigoso ir ao médico do que ficar em casa. Quando se diz abrir vagas ou reforçar equipas, se forem médicos não diferenciados, pessoas que não conseguem arranjar emprego em mais lado nenhum, se calhar é melhor ficarem onde estão. Se forem médicos especialistas será diferente.


Sem reforço, os hospitais acabam a recorrer a tarefeiros. Não existe esse mesmo risco?

Mas pelo menos podem escolher as pessoas. E há tarefeiros que são habitués. O problema do Algarve é um problema crónico que há-de resolver-se, mas leva tempo. A nossa escola tem contribuído para isso: quase todos os médicos formados no Algarve, entre seis a sete em cada dez, ficam no Algarve. E os mesmos sete em cada dez vêm do Norte.

O curso de medicina no Algarve abriu há 11 anos. Um dos objetivos era aumentar a fixação de médicos na região. É positivo, então, o balanço.

Sim, continuo a participar em reuniões e a fazer algumas tutorias. Temos essa fixação e também uma proporção grande de médicos a escolher medicina geral e familiar, o que também é um bom resultado. Não nos devemos esquecer de que mais de 90% dos encontros entre médicos e doentes acontecem na medicina familiar, só uma pequena percentagem precisa de ir a um especialista. Os médicos de medicina geral e familiar até devem fazer essa triagem. Em Portugal é diferente, mas aqui no Reino Unido não se consegue ir a um médico especialista sem se ser mandado por um médico de família, mesmo para ir ao especialista privado pelo seguro. Mas voltando aos nossos estudantes: quando a pandemia começou, voluntariaram-se todos, fizeram um trabalho fantástico. Fizeram trabalho de campo a informar as pessoas, montaram uma linha telefónica, a professora Isabel Palmeirim, diretora do curso, pôs o laboratório da dela a fazer os testes PCR. Quando se acabou o meio das zaragatoas, o líquido que está no tubo, fez o meio ela própria. Formou-se uma firma de ex-alunos na universidade para fazer zaragatoas. Não aconteceu nada que se parecesse com isto em nenhuma das outras escolas médicas.

Fonte: SOL