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10.05.2018

Fumo do tabaco está presente até onde não se fuma

Os investigadores descobriram partículas de fumo de tabaco num espaço onde não se fuma: uma sala de aulas desocupada. Agora falta perceber que impacto é que isto pode ter na saúde.

Se não é fumador (ou mesmo que seja), talvez já tenha ficado incomodado com o fumo de tabaco que entra pela janela ou pelo cheiro da pessoa (fumador) que se senta ao seu lado. Mais do que o desconforto imediato, as partículas de fumo de tabaco vão ficar nesse espaço e espalhar-se por outras salas através dos sistemas de circulação de ar, podendo ser inaladas a qualquer momento. As conclusões foram publicadas esta quarta-feira pela revista científica Science Advances.

Os malefícios do fumo do tabaco em segunda mão (fumadores passivos) já são conhecidos e motivaram a legislação que proíbe que se fume em espaços fechados e outras restrições em vários países. No entanto, sobre o impacto do fumo em terceira mão — as partículas persistentes de fumo de tabaco que ficam agarradas à roupa e a outras superfícies — pouco se sabe.

A equipa de Peter DeCarlo, professor na Universidade de Drexel (Estados Unidos), pretendia estudar as partículas que podem ser respiradas numa sala desocupada. A ideia não era procurar influência do fumo de tabaco, mas os resultados que obtiveram surpreenderam-nos: a sala, onde não se fumava, tinha 29% de partículas de fumo em terceira mão. Isto motivou a equipa a descobrir como é que era possível.

Primeiro: como é que o fumo (e respetivas partículas) entra num espaço onde não se fuma? Pelas janelas e portas entreabertas, pelas frestas dos edifícios, mas também agarrado à roupa e acessórios dos fumadores ou das pessoas que estiveram em contacto com o fumo.

Segundo: como é que as partículas ficam na sala mesmo que esta seja arejada e ventilada? Mesmo as partículas que são transportadas pela roupa podem aderir a superfícies no interior dos espaços, incluindo cadeiras ou paredes. Quando estas moléculas de fumo interagem com outras moléculas presentes no ar interior — incluindo algumas que libertamos quando respiramos — podem soltar-se das superfícies, ficar suspensas no ar e ser inaladas.

Terceiro: o que acontece numa sala, acontece em todas. Uma vez que as moléculas de fumo sejam soltas da superfície podem voltar a ligar-se a outra superfície ou ficarem associadas com moléculas de água (aerossóis), sendo este o caminho mais simples para entrarem no sistema de ventilação e chegarem a todas as salas do edifício partilhem o mesmo sistema de ventilação.

As medições foram feitas numa sala desocupada da universidade, mas os resultados em laboratório demonstram que pode ser aplicável a outras situações, como num prédio onde os vizinhos fumem dentro de casa ou num carro onde em viagens anteriores os ocupantes fumaram dentro do veículo.

A equipa do especialista em ambientes interiores, Peter DeCarlo, espera que estes resultados possam ser tidos em consideração nas políticas de prevenção à exposição de fumo de tabaco, incluindo de fumo de cigarros eletrónicos que, segundo os autores do trabalho, podem estar associados às mesmas partículas de nicotina em terceira mão.

Fonte: Observador